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“Bruxas Pairaram sobre o Autódromo de Ímola”, Revela Médico que Prestou Socorro a Senna

SÃO PAULO, SP, BRASIL, 24-03-1991: Automobilismo – Fórmula 1 – GP do Brasil, 1991: o piloto brasileiro Ayrton Senna, pilota o carro da McLaren durante prova disputada no autódromo de Interlagos | Folhapress / Folhapress

Por mais de três décadas, entre 1975 e 2006, o italiano Domenico Salcito, de 79 anos, desempenhou o papel de diretor do serviço médico do autódromo de Ímola, sendo uma figura central no atendimento durante os eventos no circuito. No fatídico 1º de maio de 1994, quando Ayrton Senna colidiu sua Williams no muro da curva Tamburello, Salcito estava a bordo do carro médico, próximo à reta dos boxes.

“Na sétima volta, ouvi pelo rádio: ‘Acidente na Tamburello’. Supus que [os carros] estivessem do outro lado e que haveria tempo: entramos com o carro médico e chegamos ao local do acidente”, relatou Salcito à Folha de S.Paulo.

Em uma entrevista em vídeo, o médico-cirurgião aposentado relembrou os momentos cruciais daquele fim de semana marcado por duas mortes e outros incidentes. Na sexta-feira, o brasileiro Rubens Barrichello se envolveu em um acidente; no sábado, o austríaco Roland Ratzenberger faleceu na pista; no domingo, logo após a largada, uma colisão entre dois carros lançou um pneu na plateia, atingindo um espectador. Pouco depois, ocorreu o trágico acidente de Senna.

“Naqueles dias, as bruxas pairaram sobre o autódromo de Ímola”, declarou Salcito.

Salcito, residente em Bolonha, recorda-se de Senna como um dos poucos pilotos que costumava visitar o centro médico nos anos anteriores. “Ele possuía uma sensibilidade incomum para tudo ao seu redor. Ele era alguém que buscava a vitória, mas ao mesmo tempo não pensava apenas em seu próprio carro.”

PERGUNTA – O fim de semana começou com o acidente de Rubens Barrichello, seguido pela morte de Roland Ratzenberger. Como estava o clima no circuito?

DOMENICO SALCITO – O Grande Prêmio era sempre uma festa. Em minha casa, costumávamos realizar um jantar para amigos, como Sid Watkins [ex-responsável médico da FIA], na quinta-feira antes da corrida, e assim foi naquele ano. Na sexta-feira, o clima já mudou com o acidente de Barrichello. Mesmo sem ser algo grave, Ayrton, preocupado, veio ao centro médico para verificar o estado dele. Mas chegamos perto da tragédia, porque o carro voou contra a rede da tribuna e, sem ela, poderia ter sido uma situação dramática.

No sábado, ocorreu o acidente de Ratzenberger, e então o ambiente mudou completamente. Ayrton solicitou uma inspeção na pista, uma vez que, após a aposentadoria de Alain Prost [piloto francês, em 1993], ele era o personagem mais influente da F1 e se sentia responsável pela organização da corrida do ponto de vista dos pilotos, especialmente os mais jovens. Ele havia dito ao nosso amigo Angelo Orsi [fotógrafo italiano] que levaria uma bandeira austríaca para, em caso de vitória, dar uma volta com ela em homenagem a Ratzenberger. Mas, infelizmente, o desfecho foi outro.

Como foram os momentos antes da largada?

D. S. – Alguns falam de um Senna com aparência triste na primeira fila. Na minha opinião, isso é uma fantasia. Claro que havia tristeza, mas sabemos que os pilotos, uma vez baixada a viseira do capacete, pensam apenas em uma coisa: a vitória. Entre nós, da equipe médica, o clima estava pesado. Como de costume, partimos da última fila com o carro médico, pilotado por Mario Casoni.

Veio o primeiro problema do domingo: o acidente de Pedro Lamy, que fez um pneu voar na tribuna e ferir um espectador, mais tarde operado por traumatismo craniano. A direção decidiu pela entrada do “safety car”, que permaneceu na pista por cinco voltas. Na sétima volta, ouvi pelo rádio: “Acidente na Tamburello”. Supus que estivessem do outro lado e que haveria tempo: entramos com o carro médico e chegamos ao local do acidente.

Quais foram as primeiras impressões?

D. S. – Assim que desci do carro, percebi que era um acidente grave, com o piloto inconsciente. Um médico que estava na curva Tamburello chegou segundos antes de nós e tentava remover o capacete, mas não conseguia devido ao sangue. Consegui depois, com a tesoura.

Quais são as lembranças mais nítidas daquele momento?

D. S. – Tenho tudo gravado na memória. Há um livro de medicina medieval que menciona duas coisas para o médico: deixar o paciente falar e observar seu rosto. Isso é suficiente para entender a situação e fazer um diagnóstico.

Qual foi o seu diagnóstico?

D. S. – Assim que removemos o capacete, olhei para o rosto do pobre Ayrton. Estava inchado, e meu diagnóstico foi de que precisávamos agir com a maior rapidez possível. Não pensei em mais nada e ignorei o protocolo. Pedi ajuda aos colegas para retirá-lo do carro pelos braços, algo que não era mais feito. Assumi a responsabilidade. Estendemos Ayrton no chão, e então outros colegas chegaram.

Decidi com Giuseppe Piana [co-responsável com Salcito pela parte médica do autódromo, falecido em 2021] fazer algo fora do protocolo, que previa que o piloto acidentado fosse levado de ambulância para o centro médico dentro do autódromo. Em vez disso, sabendo que havia um helicóptero de emergência por perto, solicitamos que pousasse diretamente na pista, algo que nunca havia sido feito antes.

O senhor subiu no helicóptero ou permaneceu na pista?

D. S. – Fiquei na pista. A corrida foi interrompida e, posteriormente, decidiu-se retomá-la. Foi um drama dentro do drama. Depois, ocorreu outro acidente nos boxes, com Michele Alboreto, que perdeu uma roda, a qual voou no corredor dos boxes e atingiu três ou quatro mecânicos. Um fim de semana de pesadelo.

Quando Senna deixou a pista de helicóptero, ele ainda estava vivo?

D. S. – Sim, ele estava vivo. Já me fizeram essa pergunta um milhão de vezes. Ele estava vivo.

Pela transmissão, vemos que, após a batida, quando ele ainda está no carro, a cabeça dele se mexe. O que foi isso?

D. S. – Foi um movimento. Ele ricocheteou para trás, e a cabeça, que não estava presa, deslocou-se para um lado e depois voltou para o outro. Ele estava inconsciente.

Quando ele partiu de helicóptero, qual foi sua avaliação da situação?

D. S. – Depois de ignorar dois protocolos, já havia percebido que a situação era gravíssima e que era necessário tentar tudo. Por isso, decidimos que ele não passaria pelo centro médico do autódromo [Senna foi levado para um hospital em Bolonha]. A esperança é a última que morre. E agimos assim. Sabia da gravidade e sabia que o desfecho poderia ser aquele que foi.

E o dia seguinte?

D. S. – Após passar pelo necrotério e perceber que Angelo Orsi estava fotografando enquanto estávamos prestando socorro, fui à redação da [revista] Autosprint para ver essas fotos. Foi aí que tive a certeza de que a coluna de direção havia se quebrado. Inicialmente, os jornalistas pensaram que nós tínhamos serrado a direção para remover o piloto. “Como conseguiram cortar a coluna tão rápido?”, perguntaram. Eu reconsiderei e disse que nem mesmo havíamos visto a direção. Em uma foto, a coluna de direção estava ao lado do carro, no chão.

Trinta anos depois, tudo está claro para o senhor em relação às causas do acidente e da morte?

D. S. – Absolutamente claro. O regulamento havia mudado, e as suspensões ativas, que amorteciam tudo, haviam sido eliminadas, mas os carros permaneceram iguais. Naquela época, estávamos nas primeiras competições do ano, e as vibrações que os pilotos sentiam eram enormes. Isso, combinado com uma operação que não deveria ter sido realizada – e aqui a culpa foi de Patrick Head, o responsável técnico da Williams. Senna afirmou que não conseguia dirigir o carro, que havia sido projetado para Prost, que era muito mais baixo que ele, e que o volante era desconfortável. Ele pediu para que fossem feitos ajustes. [O ajuste] foi um erro infeliz.

No momento do socorro, algo atrapalhou ou não funcionou bem para a sua equipe?

D. S. – Não, nada.

Vocês chegaram a tempo? Houve algum atraso?

D. S. – Estávamos a cerca de 500 metros, os quais percorremos em um carro com 300 cavalos. Saímos antes da bandeira vermelha ser exibida, mas outro colega já estava lá. Durante o processo judicial, que durou anos, todos tentaram jogar a culpa uns nos outros. A Williams tentou se defender. Em nenhum momento, os médicos foram chamados, mesmo tendo ignorado protocolos.

Na sua opinião, há algo em comum por trás dos acidentes do fim de semana, com Barrichello, Ratzenberger, Senna?

D. S. – Sim, há algo em comum entre eles. Naqueles dias, as bruxas pairaram sobre o autódromo de Ímola. É a única coisa em comum que podemos encontrar: as bruxas.

Que marcas esse fim de semana deixou em sua vida profissional e pessoal?

D. S. – Sou cirurgião. Pode acontecer de perdermos um paciente, o que é sempre um drama. Mas é necessário seguir em frente, continuar. Assim como fazem os pilotos: saem da pista, destroem o carro, ajustam o carro, voltam para o carro e voltam a correr.

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