
Aviso: este texto contém linguagem forte e relatos sensíveis, que podem servir de gatilho.
Quando o empresário Paulo* viu os primeiros cortes no corpo da filha Júlia*, com 12 anos à época, atribuiu à tristeza e à ausência da mãe, que havia morrido de câncer anos antes. Júlia fazia terapia, tinha boas notas, amigos, rotina. Tudo parecia “normal” —até que não era mais.
A adolescente escondia os ferimentos e ria durante os atos de automutilação. “Era uma mistura de vilã e vítima, de tristeza e euforia.” Paulo só descobriu mais tarde, mas o comportamento da filha também era parte de um jogo virtual violento.
Foi após uma crise da filha que Paulo pediu a funcionária que trabalhava em sua casa para ver o celular de Júlia. Ali, entendeu que havia uma rede por trás das ações dela.
Começou no Roblox, uma plataforma online onde usuários jogam e criam jogos feitos por outros. Lá, ela conheceu um grupo que a convidou para o Discord, plataforma de comunicação por voz, vídeo e texto, usada principalmente por comunidades online e gamers.
Ali, o desafio era fazer “lulz”, uma espécie de “mestre mandou do mal”. As ordens vinham de outros adolescentes: cortar a pele, jogar perfume nos cortes, beber água da privada e até tatuar um símbolo nazista no rosto. Áudios mostravam pessoas aplaudindo e vibrando por seus “desafios concluídos”.
Foi a própria garota quem pediu ao pai, em uma das crises, que fizesse algo por ela. “Pai, me interna”, disse. Paulo ligou imediatamente para a psiquiatra e levaram-na ao hospital.
O caso de Júlia e Paulo evidencia a dificuldade dos pais de adolescentes de compreenderem como o comportamento dos filhos pode estar ligado à forma como eles se relacionam nas redes sociais.
O tema foi trazido à tona recentemente por meio da série “Adolescência”, da Netflix, que mostra a surpresa da família de um garoto de 13 anos acusado de matar uma colega da escola.
Na produção fictícia, os adultos se chocavam ao descobrir que os adolescentes formavam uma rede de comunicação (muitas vezes violenta e cifrada em emojis e códigos) na internet.
Quando soube que a filha participava de desafios na internet, Paulo ficou devastado e, ao mesmo tempo, aliviado.
Quando entendi que havia influência externa, que alguém estava mandando ela fazer aquilo, soube que dava para combater.
Paulo-
A jovem ficou desconectada por um tempo do celular e isso até interrompeu o ciclo, mas, nos meses seguintes, qualquer acesso ao celular significava uma recaída. Júlia dizia que precisava do aparelho para a escola —e voltava aos grupos. Paulo então entendeu que “não tem meio-termo”.
O pai substituiu o celular por um modelo simples, com chamadas e SMS. Espelhou o aparelho no computador. Mesmo assim, ela tentou burlar: usou o app escolar, o Classroom, para conversar em chats.
Você tira o álcool da casa de um alcoólatra. Mas o celular? O celular está em todo lugar. Muito se fala sobre a série Adolescência, da Netflix, mas o que a gente está vendo na vida real é bem pior.
Paulo –
A história de Paulo virou livro. Foi o modo que encontrou de alertar outros pais sobre os riscos da exposição de crianças e adolescentes na internet. “O susto salva. Se minha história salvar uma família, já valeu.”
Por: uol
