Maceió, 2 de outubro de 2026

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Tragédia na Serra da Barriga: ‘Vivemos um luto coletivo’, diz moradora de União

Luto coletivo em União dos Palmares após tragédia na Serra da Barriga

A cidade de União dos Palmares (AL) está imersa em dor e consternação após o acidente ocorrido neste domingo (24), na Serra da Barriga, que resultou em 18 mortes e deixou 30 feridos. O local, de grande importância histórica e cultural para o Brasil, é considerado sagrado para religiões de matriz africana. As vítimas estavam em um ônibus da prefeitura que participava do projeto Pôr do Sol na Serra, promovendo visitas ao ponto mais alto da serra.

Impacto na comunidade

A religiosa Mãe Neide Oyá D’Oxum, que vive na região há mais de 40 anos, descreveu o sentimento coletivo de luto que tomou a cidade. “Estamos em um solo sagrado, onde as pessoas reverenciam nossos ancestrais. Apesar da tragédia, é importante reconhecer que este projeto trouxe visibilidade ao Quilombo dos Palmares e promove o pertencimento à luta pela causa negra”, destacou.

Ela também alertou sobre os cuidados necessários no percurso até a serra, conhecido por sua complexidade, mesmo após o asfaltamento realizado em 2019.

Relatos e mobilização

A jornalista Rayane Silva, moradora da cidade, foi uma das primeiras a chegar ao local para ajudar no resgate. Com garrafas de água, ela se juntou a outros moradores que auxiliaram os bombeiros em um cenário descrito como caótico. “Era um terreno muito íngreme e escorregadio. As vítimas eram retiradas à mão e carregadas por várias pessoas em macas improvisadas. Nunca esquecerei o momento em que um rapaz reconheceu o corpo da irmã e ficou sentado ao lado dela”, relatou.

Um guia turístico que estava no ônibus escapou por pouco. Ele contou que o veículo apresentou um problema mecânico, identificado por um barulho semelhante ao rompimento de uma mangueira. O motorista, que infelizmente perdeu a vida, pediu para os passageiros descerem, mas apenas o guia conseguiu sair antes do veículo despencar.

Reflexões sobre o acidente

O professor Clébio Correia, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), reforçou o impacto da tragédia no contexto do Mês da Consciência Negra. “Esse 20 de novembro, feriado nacional pela primeira vez, será lembrado com profunda tristeza em todo o estado de Alagoas”, lamentou.

A coordenadora do Instituto Raízes de Áfricas, Arísia Barros, também manifestou preocupação com as condições da estrada e destacou que já vivenciou situações de risco no local. “Embora asfaltada, a estrada ainda exige atenção redobrada”, alertou.

Patrimônio histórico e cultural

A Serra da Barriga é reconhecida como um dos maiores símbolos da resistência negra no Brasil, abrigando o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. Declarada patrimônio cultural brasileiro e do Mercosul, a serra preserva locais sagrados, como a Lagoa dos Negros, onde religiosos realizam rituais de matriz africana.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reforçou a importância histórica do território, que foi sede do Quilombo dos Palmares no século 18, liderado por Zumbi dos Palmares.

Em nota, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, lamentou a tragédia. “Em um mês tão significativo, a tragédia na Serra da Barriga nos atinge com uma tristeza imensurável.”

Investigação e próximos passos

A Polícia Civil investiga se o ônibus estava em condições adequadas para realizar o trajeto. A tragédia trouxe à tona questionamentos sobre a infraestrutura e segurança das vias que levam ao local, que é diariamente frequentado por estudantes e turistas.

Enquanto o luto permeia a cidade, o Quilombo dos Palmares segue como um símbolo de luta e memória, marcando não apenas a história local, mas também a identidade e resistência do povo negro no Brasil.

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